quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mundo virtual, arte real?

Uma das telas que serviram de conceito na criação da franquia Assassin's Creed; material está exposto em Paris

Afinal, video game é ou não é arte? Cá entre nós, a grande maioria dos fãs de games talvez não estejam nem aí pra essa discussão que tanto interessa aos teóricos e estudiosos da arte... Mas são cada vez maiores os sinais de que, assim como já aconteceu com os quadrinhos e o graffiti, em breve esta pergunta poderá não fazer mais sentido também para os games.
As fronteiras da arte estão sempre em questão e os diálogos entre a chamada "arte culta" e as manifestações da cultura de massas são um capítulo a parte nessa história que, ao menos desde o surgimento da Pop Art nos EUA da década de 1960, já rendeu muita coisa boa. Desde então, muita água já correu por baixo dessa ponte - e continua correndo... Hoje em dia já existem até mesmo galerias de arte especializadas em expor trabalhos de artistas que criam peças com histórias em quadrinhos, filmes, cinema, mangá e videogames. É o caso da galeria parisiense Arludik, que define sua linha curatorial como "arte contemporânea para o entretenimento".
Como informa o jornal Folha de S. Paulo, em cartaz atualmente na Arludik está uma exposição que mostra "telas conceituais criadas por um time de artistas na pré-produção dos jogos Assassin's Creed, Assassin's Creed 2 e Assassin's Creed Brotherhood" - este último será lançado somente no mês que vem. As 35 pinturas em exposição foram feitas na fase de pré-produção do jogo e serviram de referência para a realização da versão digital. Portanto, jamais seriam vistas pelo público se não estivessem expostas em uma galeria.
Mas fica a dúvida: se o diferencial de um game é a interatividade, faz sentido expor essas telas preparatórias de formato "tradicional", como qualquer outra pintura? Uma das justificativas poderia ser a possibilidade da imagem parada proporcionar um maior tempo de observação da qualidade técnica e riqueza de detalhes dos originais. E isto é mais verdadeiro ainda quando se trata de um game "hiperrealista" que tem como cenários cidades muito importantes arquitetonicamente como Roma e Florença - material visual riquíssimo, que abre possibilidades para aulas de história da arte totalmente interativas!

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Galeria Arludik
matéria Folha de S. Paulo

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Mundano: graffiti papo reto

Graffiti da série São Paulo 100 Carroças
foto publicada n'O Estado de S. Paulo, 03/10/2010

Originário das ruas e tendo alcançado o status de arte, sendo exposto em galerias, integrando o acervo de museus e já totalmente assimilado pelo mercado, o graffiti deixou de ser apenas uma técnica e já pode ser compreendido como uma linguagem capaz de manifestar ações e propostas extremamente variadas. Pode-se dizer que, hoje em dia, o graffiti é uma das inúmeras linguagens contemporâneas que qualquer artista pode usar para "dar o seu recado" de modo pessoal segundo o proprio estilo e, principalmente, as intenções de cada um.
No caso do Mundano, o graffiti assume radicalmente suas raízes: social e participativo, seu trabalho se pauta pela ação política - no sentido amplo da palavra. Estas qualidades se apresentam com mais intensidade na série São Paulo 100 carroças, seus graffitis se apresentando como intervenções diretas na paisagem e na vida da cidade, claramente com o objetivo de questionar nossa habitual alienação com relação a temas que o artista julga importantes. Nas palavras do próprio artista:

"Meu objetivo é que os "carroceiros" (catadores de papel) sejam olhados pela sociedade como profissionais da reciclagem e sejam respeitados pelo árduo trabalho, porque eu vejo muito engravatado olhando torto e socando a buzina pra eles saírem da frente e chamando eles de vagabundos, quando eles estão reciclando o lixo que eles mesmos nem produzem."

Outra característica interessante a destacar nesta série de graffitis é a centralidade e a força da palavra, que carrega a essência da mensagem. Concisas e diretas - condição essencial para sua legibilidade em meio à profusão de informações e à velocidade com que circulamos pela cidade -,as frases criadas pelo artista cumprem integralmente seu objetivo de impactar quem quer que as leia.
A seguir, reproduzo algumas fotos dos graffitis da série, que pode ser acessada na íntegra pelo link disponibilizado pelo próprio Mundano no Flickr:



Uma última palavrinha: agradeço, mais uma vez, a amiga Clarice Villac, que me apresentou o trabalho do Mundano. Valeu, Clarice!

Afetos & repercussões


haiga da poetamiga Clarice Villac sobre foto dos graffitis 
da Turma 1903 da E.M. Affonso Penna


É muito bom saber que um trabalho que se fez com prazer foi capaz de afetar outras pessoas, não é mesmo? Principalmente quando essa pessoa é muito especial, uma poeta de fina sensibilidade! E que, se não bastasse essa qualidade, também é professora e trabalha numa escola como a nossa... Pois é, essa pessoa é a poeta e amiga paulistana, residente na cidade de Campinas, Clarice Villac [http://claricevillac.blogspot.com/]. Clarice leu aqui no blog a postagem sobre o Projeto Graffiti e compôs este haiga sobre a foto da Turma 1903 tendo ao fundo seus trabalhos.
O haiga é um gênero artístico ligado à tradição da poética clássica japonesa e consiste num pequeno poema de três sílabas - um hai kai - que dialoga com uma imagem. Originalmente, esta imagem consistia num desenho ou pintura mas, atualmente, também se fazem haigas a partir de fotografias, como fez e nos ofertou afetuosamente a Clarice.
Compartilho este presente com todos vocês!
Grato, Clarice!

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+ sobre hai kai, um site:
+ sobre haiga, um blog:

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sketchbook, o que é isso?


Sketchbook do grafiteiro Binho, mostrando alguns dos desenhos preparatórios 
para o graffiti que realizou na E.M. Affonso Penna em parceria com o Leleco

Alguns dos alunos que participaram do Projeto Graffiti [ver postagem abaixo] perceberam que o Leleco e o Binho levaram vários "caderninhos" para a escola e foram bisbilhotar pra ver o que continham... Pois é, esses "caderninhos" são chamados de sketchbooks: cadernos de esboços ou rascunhos. É nesses cadernos que o artista "pensa visualmente", registra coisas interessantes que vê, rabisca rapidamente uma cena ou situação, explora as possibilidades de um desenho etc. Pode-se dizer que um sketchbook é um diário desenhado e, nesse sentido, ao folhear um sketchbook nós podemos ter uma noção do universo de interesses e do processo criativo de um artista, seu estilo de desenhar, os materiais que prefere utilizar no seu trabalho - ou seja, ficamos conhecendo o artista e seu trabalho mais profundamente.
Leonardo Da Vinci

Os sketchbooks são usados não apenas por grafiteiros mas por quase todo tipo de artista, e não é de agora: Leonardo Da Vinci [1452-1519], por exemplo, já fazia uso de cadernos de esboços [ilustração à esquerda], assim como Pablo Picasso [1881-1973] que, antes de pintar Guernica usou vários cadernos para esboçar cada um dos detalhes da obra antes de partir para a tela [ilustração abaixo, à direita].
Pablo Picasso
Os sketchbooks se tornaram, assim, documentos importantes para conhecermos melhor os artistas e passaram a ser publicados na forma de livros no exterior e, agora, no Brasil. É o que informa a matéria Livro traz esboços feitos por artistas brasileiros  publicada recentemente pelo jornal Folha de S. Paulo.
Titi Freak
Organizado por Cezar  de Almeida e Roger Basseto e publicado pela editora POP, o livro se chama Sketchbooks - As Páginas Desconhecidas do Processo Criativo. O preço não é lá muito acessível [R$ 120,00] mas são 272 páginas contendo imagens e depoimentos de 26 artistas de vários gêneros: artistas plásticos, quadrinistas, ilustradores e grafiteiros  como Titi Freak [ilustração acima, à esquerda], entre muitos outros. A boa notícia: 30 imagens do livro podem ser acessadas gratuitamente acessando o link: 


Vale a pena dar uma boa bisbilhotada nos desenhos desses artistas... E, quem sabe, alguém se anima a iniciar seu próprio sketchbook?